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Todo verão, o mundo
tem sua temperatura duplamente aferida - uma por climatologistas,
literalmente; outra pelas pesquisas de opinião, metaforicamente.
Neste ano, duas novas pesquisas trouxeram muitos dados novos sobre
como o mundo se sente. E esses dados, dizem os pesquisadores, lançam
uma luz inesperada sobre a relação entre riqueza e
felicidade.
Desde que os pesquisadores da Universidade da Pensilvânia
descobriram que milionários americanos que moram em mansões
são só marginalmente mais felizes que guerreiros massai
que vivem em choupanas, vários economistas vêm minimizando
o nexo entre dinheiro e satisfação. Num livro de 2005,
Richard Layard, estudioso britânico, diz que ambiente familiar,
emprego e saúde são, todos, fatores mais influentes
para a sensação de bem-estar do que a renda. Países
ricos poderiam ser mais felizes que os pobres, mas, além
de determinado limiar, a relação enfraquece, e mais
dinheiro não compra mais felicidade, diz a teoria.
As novas pesquisas
lançam alguma dúvida sobre essa escola de pensamento.
Os dados coletados dão maior peso ao argumento segundo o
qual crescimento e renda desempenham um grande papel na substancial
melhoria da satisfação das pessoas com a vida e de
sua atitude em relação ao futuro.
Uma dessas pesquisas
diz ser a primeira genuinamente mundial. Denominada Pesquisa Mundial
de Opinião e realizada pelo instituto Gallup, cobriu 130
países, muitos dos quais avaliados pela primeira vez. Outras
pesquisas são de menor abrangência. A respeitada Pesquisa
Mundial sobre Atitudes, do Pew Research Centre, atua anualmente
em pouco mais de 50 países. A Pesquisa Mundial sobre Valores,
coordenada pela Universidade de Michigan, é mais abrangente
(mais de 80 países), porém só é atualizada
a cada cinco anos.
Os pesquisadores
da Gallup fizeram uma pergunta padrão: qual seu grau de satisfação
com a vida, numa escala de zero a dez? Em todos os lugares ricos
(EUA, Europa, Japão, Arábia Saudita), a maioria das
pessoas diz estar feliz. Em todos os lugares pobres (especialmente
na África), as pessoas dizem que não estão.
Nas palavras de Angus Deaton, da Universidade Princeton, o mapeamento
dos resultados assemelha-se a uma representação gráfica
da distribuição da renda no mundo (ver mapa). Há
algumas exceções: Geórgia e Armênia,
embora não estejam entre os países mais pobres do
mundo, são dois dos 20 mais infelizes. Costa Rica e Venezuela,
embora sejam de renda média, estão entre os 20 mais
felizes. Os brasileiros parecem um pouco mais felizes do que justificável
por seu nível de renda.
Mas, em geral,
os níveis declarados de felicidade estão correlacionados
com a riqueza. O padrão parece se repetir também dentro
das fronteiras de cada país. Os americanos ricos são
mais felizes do que os pobres; os brasileiros ricos são mais
felizes que os mais pobres.
A outra nova
pesquisa, do Ipsos, confirma o quadro. Em primeiro na sua lista
de 20 países ordenados por felicidade está a rica
Holanda (segundo o Gallup, é a Finlândia); a China
está na lanterninha. A pesquisa perguntou ainda sobre confiança
no futuro, se acredita que seus filhos terão melhores condições
de vida do que você, e assim por diante. Independentemente
da renda corrente dos países, verificou-se uma íntima
correlação entre crescimento do PIB e otimismo, sendo
que China, Índia e Rússia revelaram-se os mais otimistas;
França, Alemanha e Itália se disseram os menos otimistas.
Se as duas pesquisas estão corretas, os chineses são
bem infelizes agora, mas esperam uma melhoria espetacular.
A pesquisa do
Ipsos não é rigorosamente comparável à
do Gallup, porque (pela primeira vez) faz perguntas a pessoas que
o Ipsos denomina "líderes e formadores de opinião
pública", em sua maioria empresários e políticos.
Esse grupo encara o mundo de modo distinto e vê as coisas
de um ângulo mais favorável do que a população
em geral (ver tabela). A discrepância entre a percepção
da elite e do povo em geral é especialmente grande na Rússia,
Índia e China. Nesses países, a atitude das pessoas
mais bem situadas é muito mais otimista que a da população.
Na Europa e nos EUA, as atitudes da elite estão praticamente
alinhadas com (ou são mais pessimistas que) as da sociedade
em seu todo.
Para sermos
justos, é preciso admitir que os economistas dedicados ao
estudo da "nova felicidade", como Layard, nunca afirmaram
a total inexistência de uma relação entre dinheiro
e bem-estar. O que disseram é que, depois que as pessoas
escapam da pobreza, o nexo é fraco e pode ser totalmente
inexistente acima de certo ponto (nas palavras de um expert britânico,
"hoje está provado, sem qualquer dúvida",
que mais dinheiro "não proporciona maior felicidade,
nacional ou individualmente"). A prova disso vem de pesquisas
na maioria dos países ricos (como a pesquisa social geral
nos EUA), que revela uma felicidade inalterada há décadas,
apesar de a renda ter crescido sensivelmente.
Aparentemente,
as novas constatações são um contraponto a
dados anteriores. Se os países mais ricos se dizem mais "felizes"
que os moderadamente ricos, isso sugere não existir um nível
quantificável de renda a partir do qual mais dinheiro não
proporciona satisfação adicional. Ainda assim, as
conclusões mais recentes não invalidam a experiência
histórica de determinados países - como os EUA - que
ascenderam a níveis mais altos de riqueza sem registrar nenhum
aumento geral nos níveis de felicidade declarada.
Mas, se o leitor
quiser ignorar o passado e concentrar-se nos níveis de satisfação
que os países sentem neste momento, os resultados são,
na opinião de Deaton, bem surpreendentes. Ele comparou a
pontuação de satisfação registrada pelo
Gallup com rendas nacionais baseadas em paridades de poder de compra,
e detectou uma correlação muito próxima.
Assim, que conclusões
deveríamos tirar da contradição entre essas
pesquisas e evidências anteriores? Problemas de definição
podem ser responsáveis por parte da explicação.
Nessas pesquisas, os entrevistadores registram o que as pessoas
relatam, e quando falam de sua "felicidade", as pessoas
referem-se a coisas diferentes. É provável que diferenças
culturais de entendimento sejam muito maiores quando há 130
países envolvidos.
Outra possibilidade
é que "felicidade" seja, na realidade, um indicador
de alguma outra coisa, como saúde. Talvez o aspecto central
seja que o dinheiro ameniza problemas de saúde, de modo que
os ricos são mais felizes do que os pobres principalmente
porque sentem-se mais saudáveis. Mas essa não pode
ser toda a explicação.
Mais de metade
dos 20 países com o mais baixo nível de satisfação
com a saúde pertenceram à União Soviética
ou estão na Europa Oriental, embora em termos estatísticos
pareçam relativamente bem de vida. Em contraste, países
africanos muito mais pobres (com incidência muito maior de
aids e outras doenças) relatam níveis mais elevados
de satisfação com a saúde. Expectativas, ou
lembranças, podem estar influindo nas respostas: problemas
de saúde num ex-país comunista parecem piores porque
as pessoas se lembram, ou julgam lembrar-se, de um passado róseo
- uma era de cobertura total pelo sistema público de saúde.
Por último,
como evidencia claramente a pesquisa do Ipsos, felicidade e otimismo
não são apenas diferentes, pode ser contraditórios.
Os chineses estão insatisfeitos, porém, otimistas;
os europeus estão satisfeitos agora, mas temem o amanhã.
Muitos nexos entre felicidade, renda e otimismo ainda não
foram extraídos das pesquisas. Esses novos dados, embora
não sejam a última palavra sobre a questão,
podem ser úteis para isso.
(Tradução
de Sergio Blum)
Disponível
em < http://www.valoronline.com.br/valoreconomico/285/primeirocaderno/especial/Alem+de+terem+mais+dinheiro+ricos+se+dizem+mais+felizes,,,59,4436643.html?highlight=&newsid=4436643&areaid=59&editionid=1809
> Acessado em 24 Jul 2007.
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