O falso pressuposto de que investir em ações é arriscado
Marcos Elias
27/04/2006


Há um falso pressuposto filosófico no mercado brasileiro de que investir em ações é arriscado. Ações são parcelas do capital de companhias abertas. Não são fichas para se jogar em um cassino. Ao deter para si ações de empresas listadas em bolsa, o investidor torna-se acionista de uma empresa submetida à vigilância da Comissão de Valores Mobiliários (CVM) e da Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa), à diligência das empresas de auditorias, ao seu próprio conselho fiscal e às regras de governança corporativa.

Mesmo assim, remanesce a falácia de que ações representam uma modalidade arriscada de investimentos. Argumentos convincentes, mas falsos, são apresentados por gerentes de contas de investimentos despreparados e artigos jornalísticos superficiais.

"Argumentum ad Popolum" é a tentativa de ganhar a causa por apelar a uma grande quantidade de pessoas. "Muito perderam dinheiro investindo em bolsa, logo investir em ações é arriscado". Essa é a mais comum das falácias lançadas contra as ações. É um argumento desqualificado e tão forte quanto a frase: "O Alcorão só pode ser verdadeira pois milhões de pessoas sabem que é. Não podem estar todos enganados". Foi-se o tempo que as empresas abriam seus capitais por exigência do BNDES. Hoje as empresas listadas apresentam vocação para a bolsa.

Diz-se também que ações são arriscadas por que suas cotações ou preços são voláteis. Nos livros, volatilidade está mesmo associada ao risco. Mas nada é mais impertinente do que investir em ações para um prazo superior a um ano e se preocupar com a volatilidade de curto prazo do mercado de ações. Ações representam empresas e suas variações de preços respeitam o desempenho operacional e financeiro do ativo que se está adquirindo. Empresas têm ciclos de negócios anuais. Qualquer horizonte de investimento em ações inferior a um ano faz com que o investimento em bolsa se torne uma mera aposta, mas isso não é um defeito do mercado de ações. É um defeito do investidor.

Aliás, essa lógica distorcida de que se há volatilidade então há risco é facilmente atacável. Se a volatilidade leva ao risco, logo a ausência de volatilidade alçaria um investimento qualquer à categoria de seguro? Investiríamos então em títulos da República Federal da Nigéria, que por não terem mercado secundário não são voláteis. Essa é a famosa falácia da negação do antecedente. Por exemplo, a estrutura "se há volatilidade então há risco. Não há volatilidade, então não há risco", equivale a estrutura "se há carros então há poluição. Não há carros, logo, não há poluição."

São aproximadamente 400 empresas listadas na bolsa brasileira. São 400 oportunidades de negócios. Você quer ter como sócios os competentíssimos controladores da AmBev? Poderá sê-lo! Quer ter como parceiro os banqueiros do Itaú? Está convidado! Basta, para ser bem sucedido no mercado acionário, seguir duas regras: comprar os ativos certos ao preço certo e carregar as ações por um tempo suficientemente longo. Ressalto que, se historicamente o principal índice da Bolsa de Valores de São Paulo, o Ibovespa, não tem superado o Certificado de Depósito Interfinanceiro (CDI), para determinados períodos há mais de 20 ações com forte liquidez em bolsa que superaram em larga conta o referencial da renda fixa.

As ações são investimentos muito seguros. O motivo é simples: é muito mais fácil entender uma empresa do que entender a economia de um país. Em outras palavras: se o analista de ações for suficientemente diligente e dedicado, poderá entender se aquele programa de redução de custos que determinada empresa vem implementando será bem-sucedido ou se aquele investimento marginal em uma nova planta lhe trará retorno atrativo.

Se algo que agregue valor econômico àquela empresa acontecer, certamente suas ações se valorizarão. Agora, ao se tratar de uma economia, não é apenas a dinâmica de um setor que conta, mas a interação entre todos eles. Há questões políticas, fiscais, monetárias, sociais, domésticas e internacionais a serem consideradas. Não há como modelar o "imodelável", por mais douto que se possa ser em assuntos econômicos.

Lembremo-nos que muitos matemáticos geniais dedicaram vidas inteiras para modelar fenômenos naturais, sem que tivessem qualquer sucesso em suas empreitadas. Então, quando um gestor faz uma "aposta" alavancada (aposta mais recursos do que tem) de que as taxas de juros americanas convergirão para o patamar de 5,50% e não de 5,00% ao ano, há uma grande incerteza nesta aposta. E é aí que está o verdadeiro risco!

Marcos Elias é sócio da Link Corretora

E-mail elias@linkcorretora.com.br


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Acessado em 22 mai 2006.

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