| Há
um falso pressuposto filosófico no mercado brasileiro de
que investir em ações é arriscado. Ações
são parcelas do capital de companhias abertas. Não
são fichas para se jogar em um cassino. Ao deter para si
ações de empresas listadas em bolsa, o investidor
torna-se acionista de uma empresa submetida à vigilância
da Comissão de Valores Mobiliários (CVM) e da Bolsa
de Valores de São Paulo (Bovespa), à diligência
das empresas de auditorias, ao seu próprio conselho fiscal
e às regras de governança corporativa.
Mesmo assim, remanesce
a falácia de que ações representam uma modalidade
arriscada de investimentos. Argumentos convincentes, mas falsos,
são apresentados por gerentes de contas de investimentos
despreparados e artigos jornalísticos superficiais.
"Argumentum ad Popolum"
é a tentativa de ganhar a causa por apelar a uma grande quantidade
de pessoas. "Muito perderam dinheiro investindo em bolsa, logo
investir em ações é arriscado". Essa é
a mais comum das falácias lançadas contra as ações.
É um argumento desqualificado e tão forte quanto a
frase: "O Alcorão só pode ser verdadeira pois
milhões de pessoas sabem que é. Não podem estar
todos enganados". Foi-se o tempo que as empresas abriam seus
capitais por exigência do BNDES. Hoje as empresas listadas
apresentam vocação para a bolsa.
Diz-se também
que ações são arriscadas por que suas cotações
ou preços são voláteis. Nos livros, volatilidade
está mesmo associada ao risco. Mas nada é mais impertinente
do que investir em ações para um prazo superior a
um ano e se preocupar com a volatilidade de curto prazo do mercado
de ações. Ações representam empresas
e suas variações de preços respeitam o desempenho
operacional e financeiro do ativo que se está adquirindo.
Empresas têm ciclos de negócios anuais. Qualquer horizonte
de investimento em ações inferior a um ano faz com
que o investimento em bolsa se torne uma mera aposta, mas isso não
é um defeito do mercado de ações. É
um defeito do investidor.
Aliás, essa lógica
distorcida de que se há volatilidade então há
risco é facilmente atacável. Se a volatilidade leva
ao risco, logo a ausência de volatilidade alçaria um
investimento qualquer à categoria de seguro? Investiríamos
então em títulos da República Federal da Nigéria,
que por não terem mercado secundário não são
voláteis. Essa é a famosa falácia da negação
do antecedente. Por exemplo, a estrutura "se há volatilidade
então há risco. Não há volatilidade,
então não há risco", equivale a estrutura
"se há carros então há poluição.
Não há carros, logo, não há poluição."
São aproximadamente
400 empresas listadas na bolsa brasileira. São 400 oportunidades
de negócios. Você quer ter como sócios os competentíssimos
controladores da AmBev? Poderá sê-lo! Quer ter como
parceiro os banqueiros do Itaú? Está convidado! Basta,
para ser bem sucedido no mercado acionário, seguir duas regras:
comprar os ativos certos ao preço certo e carregar as ações
por um tempo suficientemente longo. Ressalto que, se historicamente
o principal índice da Bolsa de Valores de São Paulo,
o Ibovespa, não tem superado o Certificado de Depósito
Interfinanceiro (CDI), para determinados períodos há
mais de 20 ações com forte liquidez em bolsa que superaram
em larga conta o referencial da renda fixa.
As ações
são investimentos muito seguros. O motivo é simples:
é muito mais fácil entender uma empresa do que entender
a economia de um país. Em outras palavras: se o analista
de ações for suficientemente diligente e dedicado,
poderá entender se aquele programa de redução
de custos que determinada empresa vem implementando será
bem-sucedido ou se aquele investimento marginal em uma nova planta
lhe trará retorno atrativo.
Se algo que agregue valor
econômico àquela empresa acontecer, certamente suas
ações se valorizarão. Agora, ao se tratar de
uma economia, não é apenas a dinâmica de um
setor que conta, mas a interação entre todos eles.
Há questões políticas, fiscais, monetárias,
sociais, domésticas e internacionais a serem consideradas.
Não há como modelar o "imodelável",
por mais douto que se possa ser em assuntos econômicos.
Lembremo-nos que muitos
matemáticos geniais dedicaram vidas inteiras para modelar
fenômenos naturais, sem que tivessem qualquer sucesso em suas
empreitadas. Então, quando um gestor faz uma "aposta"
alavancada (aposta mais recursos do que tem) de que as taxas de
juros americanas convergirão para o patamar de 5,50% e não
de 5,00% ao ano, há uma grande incerteza nesta aposta. E
é aí que está o verdadeiro risco!
Marcos
Elias é sócio da Link Corretora
E-mail elias@linkcorretora.com.br
Disponível em <http://www.valoronline.com.br/valoreconomico/285/eueinvestimento/49/O+falso+pressuposto+de+que+investir+em+acoes+e+arriscado,marcos%20elias,,49,3653549.html>
Acessado em 22 mai 2006.
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