| Na
qualidade de defensor há muito tempo da utilização
dos aspectos psicológicos na gestão de recursos, escrevi
alguns artigos nesta coluna, sobre o assunto ("Volatilidade:
Aliada ou inimiga?" (04/02/02); "Afinal quem é
o Senhor Mercado?" (30/07/02) e "Curto Prazo contra Longo
Prazo" (13/02/03).
O assunto possui vasta literatura em língua inglesa e tem
sido alvo de várias abordagens, como: a Teoria dos Contrários,
os Movimentos das Massas, os Perfis Psicológicos dos Investidores
e mais recentemente as Finanças Comportamentais em uma base
mais científica.
Neste artigo, a idéia é abordar os aspectos que dificultam
a implementação de tais conceitos no dia a dia. Esses
aspectos envolvem tanto o investidor como o gestor, que dificultam
a compra e venda de ativos, respectivamente subavaliados e superavaliados,
objetivo primordial na boa gestão de ativos.
As principais emoções que impedem os investidores
de serem bem-sucedidos são duas: a ganância e o medo.
A ganância aparece quando os mercados estão em alta
forte e o sentimento de que a alta irá persistir indefinidamente
se instala, impedindo que o investidor venda realizando lucros e,
pior ainda, motivando-o comprar nesses períodos.
Situação inversa, o medo surge nos momentos de baixa,
quando o investidor acredita que o mercado continuará a cair
indefinidamente e que será possível sempre comprar
em condições melhores do que as atuais ou, mais grave,
forçando-o a vender nessas ocasiões com receio de
que as perdas aumentem.
Os grandes "booms" e "crashes" da história
ocorreram devido a essas duas terríveis emoções:
o fenômeno das tulipas na Holanda no século XVII, a
crise de 1929 e a bolha da Nasdaq em 2001. "Booms" e "crashes"
de pequena e média magnitudes estão sempre ocorrendo
ao redor do mundo em diversos países e ativos, deflagrados
pela ganância e pelo medo.
Outro aspecto importante é considerar somente os recentes
desempenhos e avaliar o curto prazo, sem ter a devida paciência
e disciplina para obter sucesso consistente no longo prazo. Sabe-se
que, para se obter retorno consistente ao utilizar-se estratégias
baseadas em aspectos psicológicos, deve-se pensar no longo
prazo.
Os gestores, comitês de investimento e conselhos de administração,
por sua vez, na grande maioria, são guiados pela Teoria Fundamentalista,
que em linhas gerais recomenda a compra ou a venda de ativos com,
respectivamente, bons ou maus fundamentos, quer sejam em termos
de país, setor econômico ou ativo. A conseqüência
prática é que os ativos são adquiridos só
após a melhora dos fundamentos, ou seja, após elevação
dos preços, ocorrendo o processo inverso quando ocorre a
piora dos fundamentos. Em resumo, ao se seguir a Teoria Fundamentalista,
compra-se na alta e vende-se na baixa.
Um exemplo clássico recente ocorreu ao final de 2002, após
a eleição do presidente Lula, quando o Índice
Bovespa atingiu entre 8 mil e 9 mil pontos, após forte queda.
Naquele momento, raríssimos profissionais de mercado recomendavam
o investimento em ações no Brasil. Durante 2003, ano
em que o índice atingiu cerca de 22.000 pontos ao seu final,
após a melhora dos fundamentos, as recomendações
dos profissionais de mercado começaram a se multiplicar e
têm se intensificado até os dias atuais, quando o índice
já quase dobra de preço. Infelizmente essa lógica
perversa se repete ciclo após ciclo com a grande maioria
dos ativos dos mercados e em todos os cantos do mundo.
Modelos matemáticos frios que tentem replicar o comportamento
humano e suas emoções são novidades, sem o
devido tempo de teste para confirmar sua consistência de longo
prazo. Além disso, por serem "caixas pretas" desenvolvidas
por determinado gestor, ficam, pelo lado do investidor, mais para
um teste de fé do que ciência em si. Na minha visão,
a utilização dos aspectos psicológicos na gestão
de recursos está mais para arte do que pura ciência,
sendo que na utilização das duas ferramentas encontra-se
o ponto ideal.
Em razão do exposto, é difícil o sucesso desses
fundos (abertos ao público), pois poderosas forças
atuarão em sentido contrário. Investidores, impacientes
e indisciplinados, aplicando e resgatando inadequadamente - respectivamente
em momentos de euforia e crise, bem como comitês de investimento,
sempre colocando em cheque teorias e modelos matemáticos
frios que não são convencionais - são poderosos
sabotadores do seu sucesso. A minha constatação, após
quase 30 anos no mercado, é que são raros os investidores
e profissionais que possuem disciplina e dominam suas emoções
ao lidar com o mercado.
O tempo será o juiz implacável sobre o sucesso e a
consistência de longo prazo desses fundos. Vamos dar tempo
ao tempo!
Fabio Colombo é administrador de investimentos
E-mail facolom@terra.com.br
Disponível em
< http://www.valoronline.com.br/valoreconomico/285/eueinvestimento/49/As+financas+comportamentais+colocadas+na+pratica,finan%c3%a7as%20comportamentais,,49,3567893.html
> Acessado em 10 ago 2006.
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